O Inferno que passou a Céu

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Se me tivessem perguntado há uns anos o que achava da ideia de estar num parque de diversões – com música estridente a ecoar nos altifalantes e um coro caótico de crianças aos gritos – eu teria dito, sem hesitar: “vocês ‘tão mas é malucos!” Não havia dinheiro no mundo que me convencesse a trocar a tranquilidade da minha mesa da sala, com o portátil, por um cenário que, na altura, chamaria de infernal.

Hoje, curiosamente, é exactamente aí que me sinto bem.

Talvez seja por vivermos numa era em que a internet é praticamente ilimitada e temos acesso à dita através de uma maquineta que nos acompanha continuamente e que, antigamente, usávamos só para nos telefonarmos uns aos outros. Hoje em dia admito que já nem me dou ao trabalho de pedir passwords de wifi e prefiro a segurança, e rapidez, do meu hotspot privado.

Curiosamente, no meio do caos, da música, gritos e loucura, encontro uma estranha serenidade.

Vejo o Nikola a correr com os amigos e a rir-se sem filtros, a atirar bolas de borracha como se acertar no adversário fosse a coisa mais importante do universo. E eu ali, sentado, com uma Coca Cola Zero e um pacote de M & Ms, a responder a e-mails como se estivesse num escritório.

Mas o meu escritório é onde tiver de ser e um parque de diversões serve. Não só serve, como me parece perfeito, porque o pequerrucho está divertido enquanto o papá garante que as luzes não se apagam e o frigorífico está atestado.

E porque, pela primeira vez, não sinto que estou a perder alguma coisa.

Em casa, que também é escritório, há sempre aquela sensação de dívida permanente – o trabalho que nunca acaba, o computador sempre ligado, e o Nikola a puxar-me a manga: “Papá, vamos brincar?” E eu, nove vezes em dez, “O papá agora não pode, que está a trabalhar…”

Mas no meio do barulho que antes me dava cabo do juízo, acontece o contrário. Estou presente, mesmo enquanto trabalho. Estou ali. Ele vê-me. Eu vejo-o.

E talvez seja isso que mudou.

Não foi o barulho. Não foi o parque. Nem sequer fui eu, propriamente.

Foi a forma como tudo ganhou um novo significado.

Quem diria que o inferno que antes me parecia insuportável se tornaria, sem grande alarido, no ponto alto da semana.

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