A minha Nina
Este post é perigoso porque, se a minha mulher o ler, ficará furiosa. Ao contrário de mim, que sou um desbocado, ela é uma pessoa privada e detesta auto-promoções. Mas há coisas que simplesmente não consigo guardar só para mim.
Ainda no espírito do Dia dos Namorados, mesmo que muito atrasado porque passei-o no Mar Vermelho, aproveito para partilhar que nos conhecemos há uma década na App OkCupid. Foi tudo muito rápido e não tardou até nos apaixonarmos loucamente, casarmo-nos passado um ano e, dois anos depois, chegou o nosso Nikola, que foi ardentemente desejado.
Uma das histórias que mais me encantou quando nos conhecemos foi o facto de, na sua terra natal Zlatibor, no meio da Sérvia, a minha Nina recolhia animais da rua para que não morressem congelados no inverno rigoroso, com 30 graus negativos! Não era um gesto isolado; era um hábito. Também dava banho a cães vadios porque, dizia ela – com uma lucidez que me ficou gravada -, as pessoas tendem a tratar melhor os animais com bom aspecto e a maltratar ou ignorar os que parecem sujos e abandonados. Achei aquilo de uma delicadeza e inteligência emocional raras.
Mais recentemente – e este é o ponto em que sei que ela ficaria louca se me apanhasse a partilhá-lo – aconteceu algo que me deixou, mais uma vez, a admirá-la em silêncio.
Em setembro passado viu um rapaz sentado num banco perto de nossa casa. Pareceu-lhe perturbado. Em vez de passar ao lado, como eu e (quase) todos faríamos, perguntou-lhe o que se passava. Chamava-se David, era brasileiro, tinha perdido o emprego e estava a viver numa tenda, na rua.
A partir daí, sem anúncios, sem dramatizações, sem selfies solidárias, todos os dias, às oito da noite, a Nina levou-lhe o jantar. Durante meses. Demos-lhe algum dinheiro. Ele veio cá a casa algumas vezes para tomar duche, para poder apresentar-se com dignidade em entrevistas de emprego. Nada de grandioso ou performativo. Apenas cuidado consistente.
Entretanto, uns familiares da Suíça ofereceram-se para o ajudar, passando o Natal e Ano Novo lá. O sonho dele era entrar para o exército, mas as incorporações só eram em março, o que significava que continuava num limbo difícil. Depois de muitos meses na rua, esses parentes acabaram por acolhê-lo definitivamente, até março.
Antes de partir, veio a nossa casa despedir-se e agradecer à Nina. No dia 1 de março, entrou para o exército em Abrantes.
Ficámos muito felizes por ele. Tão genuinamente felizes. E ele sabe que pode contar connosco.
E aqui estou eu, a escrever isto com um misto de orgulho e receio. Orgulho na mulher extraordinária que tenho. Receio da fúria que sei que se abaterá sobre mim se ela ler estas linhas.
Mas, às vezes, amar alguém também é querer deixar registado – nem que seja num canto discreto do mundo – o quão grande é o coração dessa pessoa. Se algum dia leres isto, Nina… perdoa-me. Eu só queria que ficasse escrito.

