Conjuntivite e responsabilidade

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Há dias fui obrigado a fazer o que raramente faço: ir ao médico. Uma conjuntivite particularmente agressiva no olho esquerdo deixou-me praticamente sem visão desse lado. Surgiu de forma súbita, desconfortável e incapacitante.

Vieram as gotas com antibiótico e anti-inflamatório e, durante alguns dias, trabalhar tornou-se penoso. Ler, escrever, fixar o ecrã – tudo exigiu um esforço desproporcionado e, ainda por cima, apanhou uma viagem muito desgastante a Santiago do Chile, para embalar um montão de peixes.

Esta limitação trouxe-me à memória um episódio do segundo ano de universidade, no distante 1991. Na altura, com a autoconfiança típica deste vosso criado, achei boa ideia usar lentes de contacto o dia inteiro logo nos primeiros dias. O médico tinha-me recomendado uma habituação gradual, mas João Correia achou por bem ir dos 0 aos 100 num único dia.

O desfecho foi previsível: olhos muitíssimo inflamados, dor intensa e visão muito turva.

Mas havia um relatório de biologia para entregar.

Recordo-me de estar à noite no sótão alugado, em Gambelas, de óculos escuros em frente ao PC Olivetti, a sentir-me infeliz e com saudades da minha mãe.

Mas, de olhos vermelhos, terminei o maldito relatório e entreguei-o no prazo.

Para minha surpresa, na mesma aula uma colega entrou também de óculos escurose explicou, com leveza, que uma “ganda buba” a impedira de concluir o trabalho. Pediu mais uns dias e a resposta da professora foi tranquila e positiva.

Ouvi aquilo, igualmente de óculos escuros, mas por razões bem diferentes, e senti-me a ferver. “Passei uma noite horrível para cumprir o prazo e esta palerma safa-se porque esteve nos copos??”

Naquele momento fiz uma promessa silenciosa: se algum dia estivesse do outro lado, JAMAIS deixaria o deboche passar impune.

Entretanto, nos meus 20 anos de aulas, já estive muitas vezes nessa posição. Ouvi todas as justificações possíveis, mas nunca quebrei a regra de ouro: os prazos são para cumprir. Ponto.

Porque o esforço invisível merece reconhecimento.

Curioso como uma simples conjuntivite, décadas depois, me devolveu a esse sótão e a uma das primeiras – e mais importantes – lições práticas sobre responsabilidade.

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