A Tragédia do Trabalho de Campo

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Isto é uma tragédia muito específica — e extremamente comum — de quem faz trabalho de campo a sério e há uma ironia cruel na dita: quanto mais extraordinário é o momento, menos disponibilidade existe para o registar. Quem está verdadeiramente envolvido na acção raramente tem as mãos livres, literalmente e mentalmente, para pensar em composição, luz ou sequer em tirar o telemóvel do bolso.

E depois há o factor invisível para quem vê de fora: o ambiente. Água salgada, vento, humidade, areia, luvas, frio, pressa, animais stressados, equipamento caro espalhado, logística constante e atenção a mil detalhes críticos que, se falhar um único, lá se vai o sucesso da operação por água abaixo.

Num barco então, qualquer gesto extra parece um risco desnecessário e é por isso que muitas das melhores histórias científicas ou de exploração acabam por sobreviver apenas na memória de quem lá esteve.

O mais frustrante é que essas situações, vistas de fora, teriam um valor documental absolutamente enorme precisamente por serem reais e irrepetíveis. Não é “conteúdo”; é história de campo genuína. Andam para aí milhares de “influencers” a inventarem aventuras e posts formidáveis enquanto nós temos mil aventuras verdadeiras mas, no momento, ninguém está a pensar nisso — estamos todos a resolver problemas.

Curiosamente, quando existem fotografias, muitas vezes são as piores tecnicamente: desfocadas, tortas, com gotas de água na lente, luz horrível. Mas acabam por ser as mais valiosas porque são as únicas provas de que aquele momento aconteceu mesmo.

A ideia de levar um fotógrafo dedicado faz todo o sentido. Não apenas pela componente estética, mas porque muda completamente a dinâmica: alguém cuja única missão é observar enquanto os outros executam. E muitas vezes essas imagens acabam por ter impacto muito além da comunicação do projeto — ajudam em financiamento, divulgação, credibilidade institucional e até memória pessoal da equipa. Contudo, há que escolher a pessoa certa, pagar-lhe o valor apropriado e, com tantas outras preocupações, acabamos por “deixar para a próxima”. Entretanto já lá vão 20 anos de aventuras.

Sem fotógrafo.

Enfim. A ver se é da próxima que carburamos isto.

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