O concurso de Lego
Aqui vai mais uma das muitas histórias que irão compor a sequela do ‘Tubarões Voadores’ e desta vez temos um ultrajante caso de profunda e total injustiça, que me ensinou uma inolvidável lição em “Se não os podes vencer, junta-te a eles!”
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Teria eu dez ou onze anos, e o meu irmão Zé menos quatro do que eu, quando vimos um anúncio na ‘Casa Catela’, um estabelecimento cartaxense que vendia roupas num lado e… brinquedos no outro! E não eram brinquedos quaisquer, porque a Casa Catela oferecia a mais diversa e prodigiosa selecção de Legos em todo o Cartaxo! Com a montra repleta de caixas de Legos lindíssimos, um anúncio indicava que estava a decorrer um concurso de construção nos famosos blocos dinamarqueses, convidando os locais a submeterem as suas obras!
“Isto está no papo!!” disse eu ao Zé e voámos para casa, onde erigimos uma portentosa Torre Eiffel, com base em duas placas verdes (das altas) de 10 por 20 pinos cada uma, ou seja, uma base de 20 por 20. Os quatro pilares eram constituídos – cada um – por uma base de dois blocos de 4 por 2, ou seja, 4 por 4. Essas quatro bases começavam nos quatro extremos e convergiam para o centro, avançando um pino em cada degrau, até se unirem numa placa vermelha (fina) de 10 por 6, que constituía o primeiro andar da icónica torre da Cidade das Luzes.
Estruturalmente sólida, empregando os mesmos conceitos de engenharia com que os romanos já tinham erigido viadutos e pontes, a nossa torre foi então crescendo a partir do primeiro andar, numa cornucópia colorida – de 4 por 4, mas com a distribuição de cores simétrica e dotada de lógica, pois sempre abominei construções de Legos em que as cores são atiradas à toa, como se o mundo não estivesse coberto por um manto cromático perfeitamente lógico. Uns belos trinta andares acima, a torre terminava num piso observatório, com uma impressionante antena que se elevava uns belos dez centímetros acima do topo, emprestada temporariamente por um Lego espacial. E como se este monumento ao poder do engenho dinamarquês e imaginação lusitana não fosse suficiente, ainda puxei da caixa de Lego Technic e montei um belo elevador que, quando se accionava um botão, transportava visitantes (lamentavelmente apenas um de cada vez) até ao topo da nossa torre, que teria uns sessenta centímetros de altura.
Depois de revermos cuidadosamente a construção, garantindo que não havia falha possível, caminhámos lentamente para a Casa Catela, exibindo publicamente na Rua Batalhoz a magnífica obra que iria obviamente arrematar o primeiro prémio do concurso. Torre submetida e nome dado, regressámos a casa, abrindo espaço no móvel de brinquedos onde o nosso primeiro prémio seria acolhido – com a pompa merecida – dentro de dias, quando saíssem os resultados.
A agoniante espera pelos resultados foi dolorosa, mas temperada com a segurança de que a Torre Eiffel triunfaria sem qualquer sombra de dúvida, até porque a nossa concorrência, com quem partilhávamos a montra da Casa Catela, consistia exclusivamente em Legos montados a partir do livro de instruções de cada caixa, com zero contributo de inovação ou imaginação! “Mas que cambada de burros!!” comentávamos eu e o Zé! “Então mas estes imbecis esperam ganhar um concurso de Lego sem inventarem nada?? É preciso serem toscos!…” e ríamos até nos doer a barriga.
Dias mais tarde voltou-nos a doer a barriga, mas desta vez por motivos revoltantes… A nossa Torre Eiffel não só não ganhou o tão almejado – e merecido – primeiro prémio como, horror dos horrores (!), este foi para um kart saído de uma caixa Technic, montado escrupulosamente a partir das instruções da mesma! “Vocês só podem estar a brincar!!” vociferei eu quando levantámos a nossa torre, antes da humilhante caminhada de derrota até casa… “Então dão o primeiro prémio a isto?? Um Lego montado a partir da caixa??”
Caminhámos em silêncio, eu e o Zé, até eu lhe dizer “Não te preocupes… Para o ano damos cabo destes palermas…”
Foi um ano longo e que teimava em não passar, mas, finalmente, o concurso lá abriu novamente. Desta vez a inscrição teve de ser feita em nome do meu irmão, porque eu já ultrapassava o limite de idade. Presumo que seriam doze anos, mas não posso garantir. Neste ano caminhámos triunfalmente Casa Catela adentro com o meu portentoso castelo, o primeiro da Lego, lançado em 1979, que tinha recebido como prenda de aniversário em 81, quando fiz nove anos. O castelo, todo feito em peças amarelas, exibia uma vigorosa batalha entre os seus ocupantes e uma cambada de facínoras que tentavam conquistar as suas robustas muralhas! Os diversos soldados exibiam poses estudadas com pormenor milimétrico! Ou brandiam um machado acima da cabeça, prestes a esmagar a armadura de um opositor, ou escondiam o tronco por trás de um escudo, enquanto o outro braço arremessava uma lâmina que apanhava uma pança desprotegida! Era uma luta desenfreada, que transpirava selecção natural e instinto de sobrevivência e… pois claro que arrecadou o primeiro prémio, uma bela caixa de Lego Technic, ironicamente muito similar à do palerma que tinha recebido o primeiro lugar no ano anterior.
Uma vez entendidas as regras deste jogo, usámos esse mesmo Lego Technic para ainda lá ir buscar o prémio do ano seguinte, até os donos da Casa Catela nos pedirem respeitosamente que déssemos uma oportunidade aos restantes habitantes do pacato vilarejo do Cartaxo. “Vamos pensar no vosso caso…” respondemos, enquanto congeminávamos a cena intergaláctica com que iríamos arrebatar o prémio do ano seguinte.
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Quando quiserem uma palestra motivacional baseada em histórias e factos reais, e não em conceitos etéreos retirados do ChatGPT, já sabem quem chamar, não é verdade?

