Ódios de estimação
Quem segue as minhas conversetas, e quem já esteve nas minhas palestras ou leu os meus livros, saberá que tento manter estes conteúdos fervorosamente positivos e repletos de elogios a pessoas e situações.
Mas há coisas que me dão cabo dos nervos e, hoje, acordei com os pés de fora e com vontade de as purgar.
Aqui vão alguns dos meus ódios de estimação:
“Gambas à guilho” – homens/mulheres de Deus, são gambas “al ajillo”, que é castelhano para “ao alho”; “à guilho” não existe.
“Costoletas” também não existem, porque não vêm das “costolas” mas sim das “costelas”.
Começar as frases todas com “É assim…” também me dá sempre vontade de gritar, mas poucas coisas me desorientam mais do que ouvir “álien” em vez de “êilien”, ou “êiple”, em vez de “áple”.
Queiram anotar, crianças e adultos: em ingês, uma vogal é sempre aberta antes de uma consoante dupla, como “apple”, que se lê “Áple”.
Pelo contrário, uma vogal é fechada, antes de uma consoante única, como “alien”, que se lê “êilien”.
Agora que já descarreguei isto do sistema, posso avançar para os totós que chegam à caixa do cinema e se põem a perguntar “A que horas é a próxima sessão do…?” Fico sempre enervado por não ter feitio para gritar “É só leres o que está escrito nos ecrãs, ó totó!” que é a mesma coisa que sinto quando alguém se põe a perguntar no Donaldo “O que é que vem com o menu?” “Ó pá, tu LÊ o que ali está escrito, alma de Deus!!” apetece-me dizer, mas sou demasiado tímido para tal.
Termino com possivelmente o meu ódio mais visceral, que é a incapacidade em entender a diferença entre um “há” e um “à”. Há poucos dias vi um sinal, na janela de um snack-bar, em que alguém escreveu “Há gambas à guilho”. Por um lado, fiquei feliz com os “Há” e “à” correctamente utilizados, mas triste com o “à guilho” em vez de “al ajillo”.
Rapaziada, o “Há” é do verbo “haver” e o “à” é a contracção de dois “a”, como “já foste jantar àquele restaurante novo?”
Pronto.
Vou-me mas é calar, que já chega de resmunguice por hoje.
Mas espero que, apesar do mau feitio, estas linhas tenham servido para instruir alguma mente duvidosa e prometo que as próximas partilhas serão no tom fofinho e proactivo a que já vos habituei.

