Seis anos
No dia 6 de Agosto de 2019, às 2:22 da tarde, nascia este amiguito.
Lá estive, de touca e patucos sobre os chinelos, bata azul a cobrir a camisa havaiana, a olhar para a Nina, a sentir-me inútil perante as dores intensas que estava obviamente a experimentar.
Tive o cuidado de levar o telemóvel, para registar tudo, e não registei nada. Não por não me ter lembrado, mas porque me pareceu estúpido fotografar a enfermeira que, num banquinho, fazia força com os braços sobre a barriga da minha mulher, que agonizava de dores.
A doutora Mariana, na sabedoria e experiência dos seus 60s, a dada altura demonstrou preocupação e pediu os fórceps. A calma com que o fez, enquanto sussurrava “O cordão está enrolado no pescoço” tranquilizou-me.
Ali estava uma profissional que já tinha passado por aquele cenário tantas vezes que sabia exactamente o que fazer. Calma, sem se exaltar, manobrou a situação com a tranquilidade de quem sabe da poda.
Seis anos depois, este amigo já sabe ler e está ansioso por ir para a escola.
No dia 8 de setembro lá estaremos e só espero fervorosamente que nenhuma viagem da Flying Sharks me lixe esse momento mágico.
Se for o caso, terei de tomar uma decisão difícil, daquelas que detesto.
Até à data consegui acompanhar todas as consultas antes e depois do parto. Acho que só falhei uma. E anda não faltei a nenhum aniversário, embora tenha chegado às 8 da noite no anterior.
Mas, se tenho conseguido um excelente resultado nas “ocasiões especiais”, tenho uma onda deplorável de falhas no dia-a-dia, quando este amigo quer brincar e eu respondo, 99% das vezes, “O papá está a trabalhar, mas já vamos brincar”
Mas não vamos.
Nunca vamos.
Ok, vamos às vezes, mas não são – de longe – vezes suficientes.
Damos um passeio em família todas as noites, lemos uma (ou mais) histórias na cama e tomamos o pequeno-almoço no café da esquina várias vezes por semana.
Menos mau.
Mas os emails, os malditos emails, os Zooms, os almoços com parceiros, colegas e fornecedores, todos passam à frente do Nikola.
Não me perdoo e, por isso, as aulas tiveram de ficar para trás.
Vamos lá ver se, a partir dos 6 anos, consigo fechar a loja às 5 da tarde e dar-lhe o tempo e atenção que tanto merece.

